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Sociedade de Tempo Livre: o ócio é o "negócio"!
Postado por Charles Leonel Bakalarczyk em 2 fevereiro 2009 às 13:40
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As inovações tecnocientíficas, principalmente no campo da robótica, da informática, da genética e da telemática, têm sinalizado para a concretização da sociedade de tempo livre, cenário em que a parafernália tecnológica cuidará da quase totalidade da produção de bens e serviços, possibilitando ao homem dedicação prioritária ao ato de educar-se e ao lazer.Essa tendência, no entanto, não é de fácil trânsito no campo da esquerda tradicional. Conforme sustenta L. Koschiba, há um divisor de águas entre a velha e a nova esquerda relativamente ao tipo de sociedade que se pretende construir e que, com efeito, se expressa na seguinte disjuntiva: será o trabalho ou o tempo livre o eixo central da organização social do futuro? A sociedade de tempo livre pressupõe o avanço tecnológico (sem descuidar da questão da sustentabilidade) e recusa a tese do retorno ao "arado de boi”.Pela direita, o entrechoque não é menos robusto. A ordem burguesa, baseada na criação de falsas necessidades, no consumismo desenfreado como forma de desenvolvimento econômico e no monopólio das tecnologias de ponta, é um entrave considerável a ser ultrapassado.A fase atual, de superação da era industrial, denominada provisoriamente de pós-industrialismo ou sociedade da informação, abre caminho para a sociedade de tempo livre. A produção material sede maior espaço à produção imaterial. O conhecimento acerca de uma nova tecnologia tem maior “valor de mercado” do que o bem material gerado por essa tecnologia.Na sociedade rural, iniciada pela revolução agrícola, há sete mil anos, a terra era o meio de produção mais valioso. Na sociedade industrial, o capital, representado pelo dinheiro e pelos bens materiais (máquinas e produtos) era o centro do modelo. Na sociedade da informação, o conhecimento assume o estrelato, passando a terra e o capital para uma função de menor relevância.A sociedade informática é uma primeira nuança da possibilidade concreta da sociedade de tempo livre. Um aviso: é possibilidade, tendência, não conseqüência lógica, determinação. As inovações tecnológicas, por si próprias, nada resolvem, nem com a ajuda da economia. A política, entendida como campo das relações intersubjetivas em que as decisões relacionadas à polis são elaboradas, é quem definirá a trilha a ser tomada, apresentando-se a barbárie como uma alternativa latente.Sinale-se que a idéia de uma sociedade de tempo livre não é nova. A Grécia antiga, por Atenas, teve sua experiência na época da democracia. O cidadão livre se inseria na vida publica, cuidando dos interesses da polis. A atividade pública era valorizada ao extremo; o trabalho, em sentido contrário, como elemento da esfera privada, não era digno de um homem público. Porém, a democracia era somente para os cidadãos, excluindo do espaço público a grande maioria dos atenienses, em especial mulheres e escravos. Os escravos produziam e as mulheres cuidavam das atividades domésticas. Afinal, não havia tecnologia para garantir a produção...Pois a concretização de uma sociedade de tempo livre pode reafirmar os valores da vida pública (de dedicação quase exclusiva à polis) como concebiam os antigos, porém integrando ao processo toda a população. A figura do escravo (modo de produção escravista) e do operário clássico (capitalismo nascente) é substituída pela máquina, pela tecnologia e pelas teias da imaterialidade.O cidadão liberado do trabalho poderá ir à praça dedicar-se aos negócios do Estado. E se não puder ou não quiser ir à praça, então ele manifestará on-line sua vontade, pelo seu computador de bolso, mediante um comando de voz. A sociedade política estará subordinada à sociedade civil, que terá mecanismos de controle e de imposição democrática de sua vontade.Evidentemente que beira à insanidade pretender o fim de qualquer atividade laboral. O que se sustenta é o progressivo deslocamento do esforço produtivo para a geração de bens imateriais, ficando a máquina com o trabalho pesado. Os humanos estarão ocupados, mas com a cabeça e não com os braços. E não se pense que alguns terão de apertar botões: a tecnologia de hoje já permite que os operadores transmitam comandos verbais às máquinas (e em distância longas). Certamente haverá trabalho que exija músculos: mas será residual ou até resultado de opção de lazer (ir numa academia se exercitar, por exemplo).A sociedade de tempo livre trará consigo um novo direito: o direito ao ócio. Aliás, Domenico De Masi lembra que Lafargue, genro de Marx, já defendia em 1880 o ócio como um direito do homem. Dizia ele que o trabalho se tratava de um “ótimo tempero para o ócio”.Então, considerada a sociedade do tempo livre, o ócio não será o “negócio”?Charles Leonel Bakalarczyk
terça-feira, 30 de março de 2010
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